O Brasil inicia 2026 consolidando sua posição de destaque no mercado global de algodão, com perspectiva de mais um ano forte nas exportações. Segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), o país deve embarcar 1,575 milhão de toneladas de pluma no primeiro semestre e 1,650 milhão no segundo, mantendo o ritmo elevado observado em 2025.
De acordo com a entidade, o ano-calendário de 2025 encerrou com 3,027 milhões de toneladas exportadas, divididas de forma equilibrada entre os dois semestres. O consumo doméstico foi estimado em 730 mil toneladas.
A Anea reforça que o Brasil possui capacidade portuária e estrutura logística suficientes para sustentar os embarques previstos, especialmente a partir de julho, quando o país ganha competitividade por conta da colheita no Hemisfério Sul. Mesmo com gargalos pontuais — como desafios operacionais no Porto de Santos —, a expectativa é de crescimento nos volumes exportados ao longo do segundo semestre.
Produção Nacional de Algodão: Menor Volume, mas Safra Continua Forte
A safra 2024/2025 foi encerrada com 4,26 milhões de toneladas, o maior volume da história recente, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
Para o novo ciclo 2025/2026, a produção deve atingir 3,873 milhões de toneladas, o que representa queda de cerca de 9% em relação à safra anterior. A retração é explicada por preços menos atrativos, redução de margens para o produtor e condições climáticas irregulares, com destaque para o excesso de chuvas em regiões do Mato Grosso, principal estado produtor.
Mesmo com essa redução, o Brasil deve seguir entre os três maiores exportadores mundiais de algodão, reforçando seu papel estratégico na cadeia global de têxteis e vestuário.
Estoques e Competitividade Internacional
O estoque de passagem — volume remanescente após exportações e consumo interno — encerrou 2025 em 2,899 milhões de toneladas, aumento de 21% em relação ao ano anterior. A previsão é de que esse número recue levemente em 2026, fechando em 2,817 milhões de toneladas.
Segundo o presidente da Anea, Dawid Wajs, o aumento registrado em 2025 reflete um movimento natural de recomposição de estoques e não um sinal de enfraquecimento da demanda. “Os estoques mais robustos ajudam a manter o fluxo de oferta constante ao longo do ano, garantindo competitividade internacional e estabilidade para os embarques brasileiros”, destacou.
No primeiro semestre, o Brasil tende a perder espaço para os exportadores do Hemisfério Norte, mas recupera vantagem no segundo, quando a oferta global se ajusta e a pluma brasileira ganha mercado por qualidade e preço.
Consumo Interno e Agregação de Valor
O consumo doméstico de algodão deve permanecer em 730 mil toneladas ao longo de 2026. Ainda assim, há um movimento conjunto entre produtores e indústria têxtil — liderado por Abrapa e Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) — para ampliar a agregação de valor dentro do país.
O objetivo é elevar o uso interno da pluma para 1 milhão de toneladas nos próximos anos, fortalecendo a cadeia produtiva nacional. Para 2027, a expectativa é de que 740 mil toneladas sejam destinadas às fiações, malharias e tecelagens brasileiras.
Missão Comercial à Índia Reforça Estratégia do Cotton Brazil
A Anea participa, até 28 de fevereiro, da missão internacional do programa Cotton Brazil à Índia, que ocorre em paralelo à visita oficial da Presidência da República do Brasil ao país asiático.
A comitiva, que reúne produtores e exportadores, realiza visitas técnicas a fiações locais e participa do Cotton Brazil Outlook Índia, evento que apresenta as vantagens competitivas do algodão brasileiro — reconhecido por sua rastreabilidade e sustentabilidade.
Na temporada 2024/2025, a Índia respondeu por 24% das importações de algodão brasileiro, contra apenas 4% no ciclo anterior. Esse avanço foi impulsionado pela política tarifária indiana, que zerou o imposto de importação sobre o algodão até 31 de dezembro de 2025. A missão marca o início do calendário internacional de promoção do algodão brasileiro em 2026.
Contexto Econômico: Exportações Fortes em Meio a Política Monetária Rigorosa
O cenário de exportações positivas ocorre em um contexto de política monetária ainda restritiva no Brasil. O Banco Central (BCB) mantém a taxa Selic em 10,50% ao ano, de acordo com o Boletim Focus de fevereiro de 2026, mas projeta cortes graduais ao longo do ano, à medida que a inflação segue sob controle.
O IPCA acumulado deve encerrar 2026 em torno de 4,4%, dentro da faixa de tolerância da meta de inflação (centro de 3,0% com margem de 1,5 p.p.). O câmbio, por sua vez, permanece em torno de R$ 5,10 por dólar, influenciando diretamente os custos e receitas das exportações agrícolas.
Segundo analistas do BCB, o agronegócio brasileiro — especialmente o setor de fibras e grãos — continuará sendo um dos principais vetores de estabilidade da balança comercial e de entrada de divisas em 2026.
Fonte: Portal do Agronegócio