O farelo de arroz começa a ser visto como uma oportunidade para ampliar o valor econômico da cadeia produtiva do cereal no Brasil. Considerado tradicionalmente um subproduto do polimento do grão, o material pode ganhar novas aplicações em mercados de maior rentabilidade, incluindo os setores farmacêutico, cosmético, nutracêutico e de alimentos funcionais.
A avaliação é de Gilmar Pretto, membro do conselho fiscal da Minupar Participações S.A., com base em estudos de mercado e portfólios tecnológicos voltados ao aproveitamento de compostos bioativos presentes no farelo de arroz.
Atualmente, no Brasil, grande parte do farelo gerado no beneficiamento do arroz ainda é direcionada para a fabricação de ração animal ou para a extração de óleo bruto. Entretanto, países asiáticos já utilizam esse ingrediente como fonte de moléculas de alto valor agregado.
Farelo de arroz pode abastecer indústria de cosméticos e suplementos
Entre as oportunidades identificadas está o aproveitamento do ácido ferúlico, um antioxidante natural presente no farelo de arroz.
O composto tem aplicações na indústria cosmética, especialmente no desenvolvimento de protetores solares naturais e produtos com ação antioxidante. A tecnologia permite a utilização do ingrediente como filtro ultravioleta em determinadas formulações, reduzindo a dependência de componentes de origem petroquímica.
Segundo a análise, essa aplicação representa uma possibilidade de inovação para o mercado brasileiro de cosméticos, especialmente diante da crescente demanda por ingredientes naturais e sustentáveis.
Compostos bioativos ampliam potencial do arroz na saúde
Outro destaque é o chamado magnésio de arroz, um fitato de magnésio de origem vegetal com potencial de absorção gradual pelo organismo.
O ingrediente pode atender ao mercado de suplementos alimentares voltados para áreas como qualidade do sono, recuperação muscular e suporte digestivo, segmentos que apresentam crescimento no consumo de produtos naturais.
Além disso, o farelo de arroz é fonte de ácido fítico (IP6), composto estudado por sua capacidade quelante e potencial aplicação como estabilizante natural em formulações cosméticas e alimentícias.
A utilização do IP6 pode representar uma alternativa a aditivos sintéticos tradicionalmente empregados pela indústria, como o EDTA.
Gama-orizanol e outros ativos agregam valor ao arroz
O levantamento também destaca compostos como os ésteres de riceterol e o gama-orizanol, substâncias associadas a aplicações em produtos voltados para saúde e bem-estar.
Esses ingredientes são relacionados a benefícios como estímulo à produção de colágeno e ácido hialurônico, além de estudos que apontam potencial contribuição para a redução do colesterol LDL.
Com isso, o farelo deixa de ser apenas um resíduo industrial e passa a ser encarado como uma fonte estratégica de ingredientes funcionais.
Biorrefinarias podem transformar cadeia do arroz
Apesar do potencial tecnológico, o principal desafio está na estruturação de processos industriais capazes de realizar a extração desses compostos em escala comercial.
Segundo a análise, o Brasil já possui uma vantagem competitiva importante: a matéria-prima está concentrada nas próprias unidades de beneficiamento de arroz.
O próximo passo seria o desenvolvimento de biorrefinarias de farelo de arroz, capazes de separar e comercializar os fitocêuticos presentes no subproduto, criando novas fontes de receita para a cadeia produtiva.
A transformação do farelo em ingredientes de alto valor agregado reforça o papel do arroz dentro da bioeconomia e abre novas possibilidades para a indústria nacional, conectando produção agrícola, inovação tecnológica e mercados premium.
Fonte: Portal do Agronegócio