O impacto aparece porque as vendas não geram caixa de forma imediata
Agrolink - Leonardo Gottems
A recuperação do preço do arroz em casca nem sempre representa melhora imediata para todos os elos da cadeia. Enquanto a valorização é importante para o produtor, a indústria pode enfrentar perdas quando existe diferença entre o valor usado na formação das vendas e o custo necessário para recompor os estoques.
Segundo Sergio Cardoso, analista da cadeia de arroz, um dos períodos mais difíceis para as empresas ocorreu quando o cereal beneficiado foi comercializado com base em uma matéria-prima abaixo de R$ 50 por saco. Em vários negócios acompanhados, os preços CIF praticados junto aos clientes correspondiam a um arroz em casca estimado em cerca de R$ 45 por saco.
O impacto aparece porque as vendas não geram caixa de forma imediata. Entre a negociação, a entrega e o recebimento, os prazos podem chegar a 30, 45 ou até 60 dias. Com isso, parte das indústrias recebe agora por produtos vendidos com referência em um custo de R$ 45, mas precisa voltar ao mercado para comprar matéria-prima acima de R$ 60 por saco.
A diferença compromete a margem e aumenta a pressão sobre o capital de giro. Mesmo com a recuperação das cotações no campo, as empresas que venderam antecipadamente sem prever a mudança de preços podem registrar prejuízos e enfrentar dificuldades para financiar novas compras.
O cenário evidencia um dos principais desafios da cadeia orizícola brasileira: o descompasso entre a compra da matéria-prima e o repasse dos custos ao mercado. Assim, a alta do arroz em casca pode conviver com dificuldades financeiras na indústria, mostrando que a análise do setor precisa considerar não apenas a cotação, mas também os prazos comerciais e a velocidade de recomposição dos estoques.