O preço do arroz pode representar realidades econômicas muito diferentes ao longo da cadeia produtiva. Para o produtor rural, uma cotação considerada baixa pode comprometer a rentabilidade da lavoura e a capacidade de manter os investimentos na atividade. Já para a indústria, o mesmo valor pago pela matéria-prima pode representar um custo elevado diante das despesas envolvidas no beneficiamento e da forte concorrência no mercado.
Segundo Sergio Cardoso, analista da cadeia de arroz, essa diferença de percepção não significa necessariamente que exista uma contradição entre os elos do setor. O que muda é a estrutura de custos, os riscos e as responsabilidades assumidas por cada segmento.
Produtor enfrenta pressão sobre os custos
No campo, o preço recebido pela saca precisa ser analisado em relação ao custo total de produção. Entre os principais componentes estão sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas, mão de obra, energia, crédito e juros.
Além dessas despesas, o produtor também está exposto aos riscos climáticos e às oscilações do mercado. Quando a remuneração obtida com a venda do arroz fica abaixo ou próxima do custo de produção, a margem financeira diminui e pode comprometer a continuidade dos investimentos na próxima safra.
Nesse cenário, uma cotação aparentemente elevada para outros agentes da cadeia pode continuar sendo insuficiente para garantir retorno adequado ao produtor.
Indústria também sente a pressão de custos
Na indústria, entretanto, a avaliação pode ser diferente. O preço pago pela saca de arroz representa apenas uma parte da estrutura necessária para transformar a matéria-prima em produto acabado.
Beneficiamento, embalagem, energia elétrica, transporte, tributos, armazenamento e capital de giro aumentam o custo final. Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta um ambiente de forte competição no varejo, que limita a possibilidade de repassar integralmente os aumentos de custos aos consumidores.
O resultado é uma pressão adicional sobre as margens industriais.
Mesmo preço, impactos diferentes
Para Cardoso, compreender essa dinâmica é fundamental para evitar uma análise isolada do preço do arroz.
O mesmo valor da saca pode ser considerado baixo pelo produtor e alto pela indústria porque cada elo possui uma estrutura de custos e riscos diferente.
O produtor precisa de remuneração suficiente para recuperar os investimentos realizados na produção e permanecer na atividade. A indústria, por sua vez, precisa adquirir a matéria-prima, realizar o processamento e disponibilizar o produto ao mercado mantendo competitividade.
Essa equação também envolve o varejo e o consumidor, que sofrem impactos quando os custos aumentam e os preços precisam ser ajustados.
Rentabilidade de um elo afeta toda a cadeia
A análise reforça que a cadeia do arroz deve ser observada de maneira integrada. A perda de rentabilidade em um determinado segmento pode gerar consequências para os demais no médio e longo prazo.
Se o produtor reduz investimentos por falta de remuneração adequada, a oferta futura pode ser afetada. Da mesma forma, se a indústria perde competitividade diante de custos elevados e margens reduzidas, sua capacidade de absorver matéria-prima e atender o mercado também pode ser comprometida.
Por isso, o debate sobre o preço do arroz não deve se limitar à comparação entre a cotação da saca e o preço pago pelo consumidor.
Equilíbrio é desafio para o mercado de arroz
O principal desafio está em encontrar um nível de preços capaz de preservar a sustentabilidade econômica dos diferentes elos da cadeia.
Para o produtor, isso significa garantir remuneração compatível com os custos e os riscos da produção. Para a indústria, envolve manter capacidade de processamento e competitividade. Para o varejo, significa operar com margens sustentáveis. E, para o consumidor, representa acesso ao arroz a preços compatíveis com sua renda.
A discussão sobre o preço do arroz, portanto, passa pela necessidade de equilibrar custos de produção, margens industriais, competitividade, renda do consumidor e sustentabilidade da cadeia.
Nesse contexto, a percepção de que o arroz está “barato” ou “caro” depende do ponto da cadeia em que o preço é analisado. Mais do que identificar quem está certo, o desafio do setor é garantir que a formação de preços permita a continuidade da produção, da industrialização e da oferta do alimento ao consumidor.
Fonte: Portal do Agronegócio