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19-08-2026

Milho ganha força com estoques menores nos EUA, enquanto soja aguarda reação da demanda chinesa

O mercado internacional de grãos começa a apresentar trajetórias distintas para milho e soja. Enquanto o cereal encontra suporte na redução dos estoques norte-americanos e no avanço das exportações, a oleaginosa permanece pressionada por uma oferta elevada e depende de novos sinais de demanda, principalmente por parte da China.

Os dados de oferta e demanda divulgados em agosto pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) reforçaram essa diferença. O balanço do milho ficou mais ajustado, aumentando a sensibilidade das cotações a problemas climáticos e possíveis surpresas no consumo. Para a soja, a ampliação da produção norte-americana limita uma recuperação mais consistente dos preços.

No Brasil, entretanto, o comportamento das bolsas internacionais representa apenas uma parte da formação das cotações. Dólar, prêmios de exportação, ritmo dos embarques e demanda interna continuam determinando quanto das oscilações externas chega efetivamente ao produtor.

Produção maior mantém pressão sobre a soja

No balanço da soja, o USDA reduziu a estimativa de produtividade dos Estados Unidos de 59,40 para 59,07 sacas por hectare. A revisão, porém, foi compensada pelo crescimento de 1,7% da área a ser colhida, agora calculada em 34,72 milhões de hectares.

Com a expansão da área, a produção norte-americana foi projetada em 122,99 milhões de toneladas, superando as 121,8 milhões de toneladas esperadas pelos agentes do mercado. Os estoques finais foram estimados em 8,71 milhões de toneladas.

A previsão para as importações chinesas permaneceu em 115 milhões de toneladas. Sem uma revisão positiva das compras da China, a maior consumidora mundial da oleaginosa, o mercado continua com dificuldades para absorver o volume disponível nos Estados Unidos.

Segundo Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, a demanda permanece como o principal fator de limitação para uma reação mais consistente da soja. Embora o aumento do esmagamento ofereça sustentação aos mercados de farelo e óleo, o crescimento do processamento não elimina completamente o excedente de grão norte-americano.

Soja depende da China e do clima nos Estados Unidos

A produção brasileira de soja na safra 2026/27 continua projetada em 186 milhões de toneladas. A perspectiva de uma nova colheita volumosa no Brasil amplia a necessidade de escoamento e mantém as cotações internacionais dependentes do comportamento da demanda global.

Nesse ambiente, uma valorização mais expressiva da soja exigiria compras chinesas acima do esperado, aceleração das exportações dos Estados Unidos ou perdas mais relevantes nas lavouras norte-americanas.

O clima durante as etapas decisivas do desenvolvimento das plantas também permanece no radar. Eventuais reduções na produtividade poderiam alterar o balanço, mas, até o momento, o crescimento da área colhida mantém a oferta em uma condição relativamente confortável.

Estoques menores aumentam potencial de recuperação do milho

O milho apresentou fundamentos mais favoráveis aos preços. As exportações norte-americanas referentes à temporada 2025/26 foram elevadas de 84,46 milhões para 86,36 milhões de toneladas, indicando maior demanda pelo cereal produzido nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, os estoques de passagem recuaram de 51,31 milhões para 49,40 milhões de toneladas. Para a safra 2026/27, o USDA projetou estoques finais de 41,98 milhões de toneladas, redução de 7,65%.

A relação entre estoque e consumo caiu de 11,01% para 10,12%. Esse indicador mostra que o volume disponível ao final da temporada ficou menor em comparação com a demanda total, reduzindo a margem de segurança do mercado.

Na avaliação de Isabella Pliego, o balanço norte-americano deixou uma situação mais confortável e passou para um patamar considerado ajustado. Com estoques relativamente menores, qualquer problema climático, perda de produtividade ou aumento inesperado da demanda pode provocar uma reação mais intensa nas cotações.

Produção dos EUA continua elevada

Apesar do aperto nos estoques, a produção norte-americana de milho permanece elevada, estimada em 406,75 milhões de toneladas. O principal fator de suporte não está, portanto, em uma quebra expressiva de safra, mas na combinação entre consumo, exportações maiores e redução dos volumes remanescentes.

Esse cenário aumenta a importância do clima nas regiões produtoras dos Estados Unidos. Como o mercado dispõe de um “colchão” menor, eventuais revisões negativas de produtividade podem ter impacto proporcionalmente maior nos preços internacionais.

Por outro lado, a confirmação da produção projetada e uma eventual desaceleração das exportações poderiam limitar o avanço das cotações. O comportamento da demanda será decisivo para determinar se o milho conseguirá sustentar sua recuperação.

Consumo interno reduz estoques de milho no Brasil

O balanço brasileiro também aponta menor disponibilidade de milho. A projeção dos estoques finais para 2026/27 foi reduzida de 11,1 milhões para 10,1 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno aumentou de 98 milhões para 100 milhões de toneladas.

A expansão da demanda doméstica, impulsionada principalmente pelas cadeias de proteína animal e pela produção de etanol de milho, amplia a disputa pelo cereal e pode oferecer sustentação às cotações em determinadas regiões.

Esse movimento ganha importância especialmente quando as exportações permanecem aquecidas. Quanto maior o volume direcionado ao mercado externo, menor tende a ser a disponibilidade interna, principalmente nos períodos de entressafra.

Dólar, prêmios e exportações definem preços ao produtor

Mesmo com a melhora dos fundamentos internacionais do milho, os efeitos sobre os preços brasileiros dependerão do câmbio e das condições de comercialização. A valorização do dólar tende a aumentar a competitividade das exportações e sustentar as cotações internas, enquanto o fortalecimento do real pode reduzir parte desse estímulo.

Na soja, os prêmios pagos nos portos brasileiros também exercem influência direta sobre as referências no mercado físico. O ritmo das compras chinesas, a disponibilidade de produto, os custos logísticos e a concorrência entre Brasil e Estados Unidos ajudam a determinar esses diferenciais.

Milho e soja, portanto, entram em uma nova fase do mercado internacional. O cereal opera com estoques norte-americanos mais apertados e maior exposição a riscos climáticos e oscilações da demanda. A oleaginosa, por sua vez, ainda precisa de estímulos adicionais de consumo para neutralizar a pressão exercida pelo aumento da oferta.

Para os produtores brasileiros, os próximos movimentos serão definidos pela combinação entre os relatórios do USDA, o clima nos Estados Unidos, as importações da China, o câmbio, os prêmios de exportação e o avanço da demanda doméstica.

Fonte: Portal do Agronegócio

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