Por Rafael Walendorff — Brasília
O saldo problemático do crédito rural bateu recorde em julho em termos percentuais e nominais na série analisada desde agosto de 2020. Ao todo, são R$ 207,4 bilhões em financiamentos em atraso, inadimplentes, prorrogados e renegociados. O montante equivale a 23,5% da carteira total registrada no sistema financeiro nacional, de R$ 881,6 bilhões, segundo dados atualizados do Banco Central.
O aumento do saldo com problemas coincide com outra estatística divulgada na semana passada pelo BC, de que a inadimplência no crédito rural para pessoas físicas também foi recorde em julho, em 8,8%. Enquanto isso, produtores relatam dificuldades para renegociar dívidas de acordo com as regras da Medida Provisória 1.376/2026.
Segundo os dados do BC, houve avanço, sobretudo, do saldo de operações inadimplentes, ou seja, aquelas não pagas após 90 dias ou mais do vencimento. O valor passou de R$ 38,1 bilhões em junho para R$ 45,7 bilhões em julho.
As demais categorias evoluíram de forma marginal. Os financiamentos com atrasos entre 15 e 90 dias passaram de R$ 21,2 bilhões para R$ 22,4 bilhões no período; as parcelas prorrogadas saíram de R$ 31,6 bilhões para R$ 32,2 bilhões e as renegociadas, de R$ 106,5 bilhões para R$ 106,9 bilhões.
A situação piorou no Rio Grande do Sul, onde produtores enfrentam prejuízos na produção há cinco anos em função de secas e enchentes. O saldo problemático das operações chegou a R$ 44,9 bilhões, 41,6% da carteira total de R$ 108,8 bilhões. Em julho, financiamentos em atrasos praticamente dobraram, para R$ 4,1 bilhões.
Mesmo assim, a soma das operações de crédito rural em “curso normal” no Rio Grande do Sul tem caído desde março deste ano, saindo de quase R$ 74 bilhões para R$ 63,8 bilhões em julho.
Em Mato Grosso do Sul, a maior parte da carteira total está com problemas. São R$ 19,5 bilhões em operações com atrasos, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas contra R$ 9,5 bilhões de financiamentos em curso normal. Goiás reduziu a carteira problemática para cerca de R$ 20 bilhões e Mato Grosso, para R$ 21,8 bilhões.
Enquanto os problemas crescem nas carteiras das instituições financeiras, produtores seguem com dificuldades para acessar as linhas de renegociações de dívidas criadas pela MP 1.376/2026. Há relatos de cobranças de pagamentos de entradas de até 15% do passivo e de exigências de novas garantias para contratar a liquidação do débito. Agricultores reclamam também do não enquadramento de parcelas de custeio já vencidas e investimento adimplentes.
Um produtor do Rio Grande do Sul que teve contratos renegociados de custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor (Pronamp), a 8% ao ano, e do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a 5% ao ano, disse que a medida é inócua. Segundo ele, que prefere não se identificar, como há cobrança de IOF nas novas operações, o saldo devedor aumentou.
As emissões de Cédulas de Produto Rural (CPRs) e as operações de crédito rotativo, feitas para rolar dívidas anteriores, também não têm entrado na renegociação e geram críticas do setor.
O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), relator da MP 1.376, disse que haverá extensão do prazo para prorrogação de parcelas de crédito rural que estão vencendo para que permaneçam adimplentes e possam ser enquadradas na renegociação. Ele teve reuniões nesta semana no Palácio do Planalto sobre o tema, mas ainda não foram conclusivas.