Exportações de arroz crescem 24,2%, enquanto importações avançam 26,5%
Por Seane Lennon
Após meses de pressão, o mercado brasileiro de arroz começa a apresentar sinais de recuperação, impulsionado pela valorização internacional e pela redução da oferta disponível no mercado interno. Segundo informações apresentadas pelo analista Evandro da Silva Oliveira em webinar promovido pelo Sistema Faesc/Senar e pela Safras & Mercado, o indicador da consultoria chegou a R$ 83,79 por saca, mas o ritmo dos negócios ainda depende da demanda doméstica e da concorrência com o produto importado.
Preço do arroz volta a subir após meses de pressão
Durante um longo período, as cotações do arroz permaneceram abaixo de R$ 60 por saca nas principais regiões produtoras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em determinados momentos, os preços recuaram para a faixa de R$ 50 a R$ 55 por saca. Nas últimas semanas, porém, o mercado começou a reagir. O indicador da Safras & Mercado apresentado no webinar alcançou R$ 83,79 por saca, calculado por meio de uma média ponderada que considera a representatividade de cada região.
No Rio Grande do Sul, negócios pontuais ocorrem entre R$ 80 e R$ 82 por saca, principalmente na Fronteira Oeste, com variações conforme a região e a qualidade do produto. Em Santa Catarina, as indicações ficam entre R$ 72 e R$ 76 por saca. “O mercado segue nesses patamares, aguardando os sinais de melhoria que vieram um a um”, afirmou Oliveira.
O presidente do Sistema Faesc/Senar, José Zeferino Pedrozo, destacou a importância das informações para Santa Catarina, segundo maior produtor nacional de arroz. Para ele, acompanhar os movimentos do mercado é fundamental em uma atividade sujeita a ciclos de alta e baixa e que representa uma fonte expressiva de renda para toda a cadeia produtiva.
Menor oferta interna favorece a recuperação das cotações
Segundo Oliveira, a reação dos preços internacionais, associada à redução da oferta disponível no mercado doméstico, ajudou a sustentar as cotações brasileiras. Uma parcela expressiva da safra foi comercializada em níveis que trouxeram prejuízos aos produtores. Com menos produto em estoque, parte dos agricultores passou a negociar com maior cautela, aguardando condições mais favoráveis de comercialização.
O analista também relacionou a valorização internacional às preocupações climáticas associadas ao El Niño, com possíveis reflexos no Mercosul e, principalmente, na Ásia. Esse cenário alterou as expectativas para os próximos meses e levou produtores a elevar suas pedidas para valores superiores a R$ 80 por saca.
A indústria, entretanto, encontra dificuldades para acompanhar esses preços, o que limita o ritmo das negociações. Um dos fatores é o comportamento do varejo, que ainda mantém estoques adquiridos a preços menores e apresenta uma reposição mais lenta.
Consumo doméstico será decisivo para o mercado do arroz
De acordo com Oliveira, cerca de 85% da produção brasileira de arroz é destinada ao mercado interno. Por isso, o comportamento do consumo em novembro e dezembro será determinante para a sustentação dos preços. Uma retomada das compras poderá prolongar a recuperação das cotações ou, pelo menos, reduzir o risco de novas quedas.
O analista também chamou a atenção para a diferença entre o custo atual da matéria-prima e os preços promocionais encontrados nos supermercados. Em alguns estabelecimentos, pacotes de cinco quilos de arroz ainda são vendidos por R$ 12 a R$ 14. Na avaliação apresentada durante o webinar, preços próximos de R$ 18 por pacote permitiriam maior equilíbrio entre consumidores, indústria e produtores.
Importações de arroz reduzem o efeito das exportações
O comércio exterior também influencia o mercado brasileiro. Embora as exportações tenham superado 1 milhão de toneladas e estejam acima do resultado da temporada anterior, as importações avançaram em ritmo semelhante.
Segundo Oliveira, uma parcela relevante do arroz importado vem do Paraguai e de outros países do Mercosul, ampliando a disponibilidade do produto no mercado nacional. O câmbio também favoreceu as compras externas. O dólar chegou recentemente a R$ 4,98 e, em períodos anteriores, operou abaixo desse patamar, tornando o arroz estrangeiro mais competitivo no Brasil.
Entre março e setembro, o país exportou 1,145 milhão de toneladas de arroz em base casca, alta de 24,2%. No mesmo período, as importações alcançaram 1,123 milhão de toneladas, avanço de 26,5%. “É nesse ponto que precisamos concentrar a atenção. Não basta observar apenas o avanço das exportações sem considerar o volume de arroz do Mercosul que ingressa no mercado brasileiro. Quando o produtor se retrai e eleva suas pedidas, a indústria, muitas vezes sem alternativa, recorre ao produto importado, que segue bastante competitivo”, explicou Oliveira. O cenário indica que a recuperação dos preços dependerá não apenas da oferta doméstica e das cotações internacionais, mas também da capacidade de o consumo absorver os reajustes e da competitividade do arroz importado.