Brasil avalia crédito subsidiado para setores atingidos pelo tarifaço americano
Agrolink - Aline Merladete
Segundo análise de Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, os mercados chegam a esta sexta-feira pressionados por duas frentes que raramente aparecem sozinhas: guerra e protecionismo. No exterior, a sexta noite consecutiva de ataques dos Estados Unidos ao Irã reacendeu o temor de interrupções no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo, o que levou o Brent de volta à região de US$ 85 por barril e o WTI para perto de US$ 79.
Na avaliação da CEO da Magno Investimentos, esse movimento incorpora um prêmio geopolítico que rapidamente deixa de ser assunto militar para virar inflação, juros e queda de margem corporativa — "quando o petróleo sobe por medo, a conta chega antes da explicação".
Na Ásia, o dia terminou em forte baixa, com o Nikkei recuando 4,03%, o índice de Xangai caindo 3,05% e o Hang Seng perdendo 1,78%, em meio a uma liquidação relevante nas ações ligadas à inteligência artificial. O movimento se estendeu aos futuros americanos, com o Nasdaq indicando queda próxima de 2% e o S&P 500 recuando cerca de 1%, ainda sem um gatilho isolado que justificasse tamanha realização. Para Olívia Flôres de Brás, em mercados muito valorizados, às vezes o motivo da queda é apenas a descoberta tardia de que preço também importa.
Nos Estados Unidos, os investidores acompanham hoje dados de construção de moradias, produção industrial e sentimento do consumidor, em um ambiente no qual os juros longos continuam elevados. A Treasury de dez anos rondava 4,53%, enquanto o título de trinta anos permanecia acima de 5%, patamares que encarecem crédito, comprimem múltiplos e reduzem o espaço para complacência. O vice-presidente do Federal Reserve, Philip Jefferson, reforçou que a autoridade monetária continua comprometida com a meta de inflação de 2%, inclusive com a possibilidade de novos apertos — movimento que, segundo a CEO da Magno Investimentos, mostra que Wall Street gosta de liquidez, mas o Fed, por enquanto, prefere disciplina.
Na Europa, a inflação da zona do euro desacelerou de 3,2% para 2,8% em junho, enquanto o núcleo recuou de 2,6% para 2,4%. A leitura mensal mostrou queda de 0,1%, em linha com as expectativas, ajudando a aliviar parte da pressão sobre o Banco Central Europeu. Para Olívia Flôres de Brás, o dado é positivo, mas não encerra o problema: energia mais cara, guerra prolongada e dólar fortalecido podem reabrir pressões rapidamente, já que inflação controlada em planilha pode voltar pela porta dos fundos em um barril de petróleo.
No Brasil, o tarifaço americano continua dominando o noticiário e elevando a tensão entre Brasília e Washington. Segundo o governo, a nova tarifa de 25% deve atingir aproximadamente 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, o equivalente a cerca de US$ 7,4 bilhões com base nos dados de 2024, enquanto estimativas divulgadas nos jornais apontam impacto potencial sobre até US$ 11 bilhões em vendas. Na leitura de Olívia Flôres de Brás, a diferença entre os números não reduz o problema: milhares de produtos serão afetados, empresas perderão competitividade e o governo já discute linhas de crédito subsidiadas para os setores atingidos — "quando o Estado precisa socorrer a empresa depois de ajudar a criar o problema, a política econômica vira uma espécie de seguro contra ela mesma".
A ameaça de aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica acrescenta outra camada de incerteza. O governo sinaliza que poderá responder às tarifas americanas com contramedidas comerciais, enquanto promete preservar a estabilidade macroeconômica e apoiar os setores prejudicados. Para a CEO da Magno Investimentos, o risco é transformar uma disputa comercial em instrumento eleitoral, especialmente em um momento em que qualquer retaliação mal calibrada pode elevar custos, reduzir comércio e pressionar a inflação doméstica — já que retaliação pode soar firme no palanque, mas costuma chegar delicada ao caixa das empresas.
Os ativos brasileiros já refletem esse desconforto. O Ibovespa caiu 1,24%, o dólar avançou para R$ 5,0990 e a curva de juros encerrou em alta, embora o fluxo estrangeiro siga positivo. Apenas em 15 de julho, investidores externos ingressaram com R$ 703,4 milhões na B3; no mês, a entrada soma R$ 2,293 bilhões e, no acumulado de 2026, alcança R$ 36,141 bilhões. Segundo Olívia Flôres de Brás, o capital estrangeiro não ignora o risco brasileiro, apenas exige remuneração para tolerá-lo — dinheiro internacional não tem ideologia, mas possui memória, calculadora e passagem de volta.
No campo da atividade e da inflação, os dados locais oferecem sinais mistos. O IGP-10 caiu 1,13% em julho, acumulando alta de 2% no ano e 2,68% em doze meses, com forte recuo de 1,76% no IPA-10. O IPC-Fipe avançou apenas 0,01% na segunda quadrissemana do mês, enquanto o varejo ampliado havia recuado 0,2% em maio, bem abaixo da expectativa de alta de 0,8%. A XP reduziu seu acompanhamento do PIB do segundo trimestre de 0,51% para 0,47%, e o mercado aguarda agora o IBC-Br de maio. Na avaliação de Olívia Flôres de Brás, a economia brasileira desacelera com alguma elegância estatística, embora a política faça questão de produzir barulho suficiente para ninguém perceber.
No ambiente corporativo, a Moody's rebaixou o rating da Cosan de Ba3 para B1, com perspectiva negativa, citando cobertura de juros fraca e dependência de monetização de ativos; a Telefônica aprovou R$ 500 milhões em juros sobre capital próprio; a Eneva elevou em 35% sua geração bruta no segundo trimestre; e a Vamos registrou receita líquida de R$ 1,554 bilhão, alta de 10,1%.